O que as novas séries em alta no audiovisual, Lanterns e Stuart Não Consegue Salvar o Universo, têm em comum?

Além de estarem na mesma plataforma e brincarem com o universo da DC, não se parecem quase nada. Então por que tanto sucesso?
A princípio, temos Lanternas: uma história que parte do universo dos Lanternas Verdes, mas escolhe um caminho muito mais próximo do mistério e da investigação. John Stewart e Hal Jordan estão envolvidos em uma trama que começa com uma morte e vai abrindo, aos poucos, perguntas sobre o que realmente aconteceu. No sexto episódio, lançado em 20 de setembro, a investigação sobre a morte de Hal continua enquanto a série aprofunda as relações e os conflitos de seus personagens.
E então temos Stuart Não Consegue Salvar o Universo. Aqui, o fim do mundo também está na mesa, só que com uma boa dose de caos, multiverso e comédia. Na série, Stuart e seus amigos atravessam diferentes realidades enquanto tentam consertar uma confusão que eles mesmos ajudaram a criar.
E a diferença entre as duas não poderia ser mais divertida.
Duas formas de olhar para o mesmo universo

Lanterns poderia simplesmente apostar em tudo aquilo que esperamos de uma história de super-heróis: poderes, batalhas, grandes ameaças e o destino do universo em jogo. Mas a série desacelera, investiga, cria suspeitas e deixa os personagens carregarem o peso da história. No episódio 6, por exemplo, o foco está muito mais nas consequências da morte de Hal, na relação entre John e seu passado e nas perguntas deixadas pela investigação do que em uma grande batalha cósmica.
Stuart, por outro lado, pega exatamente esse imaginário gigantesco e todas os possíveis acontecimentos de super heróis e transforma em combustível para a comédia e muita sátira. O título do nono episódio de Stuart já entrega uma piada: “Spoiler: Não conseguimos o Lanterna Verde”.
E claro que não era apenas uma brincadeira aleatória. Os criadores da série explicaram que queriam utilizar o Lanterna Verde no episódio, pra aproveitar o hype da série, mas não conseguiram. Como a série Lanternas estava em desenvolvimento, o personagem não estava disponível naquele momento.
A solução? Transformar a própria limitação em parte da história. Em vez do Lanterna Verde, o episódio coloca Stuart e seus amigos em um universo de quadrinhos onde encontram outros personagens da DC, incluindo o Flash e o Sr. Frio. É uma situação curiosa que, apesar de parecer simples, é algo que acontece o tempo inteiro no audiovisual:
nem sempre você consegue fazer exatamente aquilo que imaginou.
E isso não significa necessariamente que a ideia acabou. Às vezes, significa que ela precisa encontrar outro caminho.
Quando a limitação vira linguagem

Existe uma diferença enorme e importante entre pensar:
“Não podemos fazer isso.”
e pensar:
“Tá. Então o que podemos fazer?”
No caso de Stuart, a resposta foi transformar a ausência do Lanterna Verde em piada e construir o episódio ao redor de outros personagens. O que poderia ser um problema de produção virou parte da experiência de quem assiste. E essa é uma das coisas mais interessantes para quem trabalha com audiovisual, a inteligência e a capacidade de ver uma limitação e transformar ela em uma nova ideia, as vezes ainda melhor.
Porque nós sabemos que a produção está cheia de limites.
Orçamento, tempo, equipamento, locação, direitos, disponibilidade de elenco, clima…
E então aquela ideia maravilhosa que parecia perfeita no roteiro e simplesmente não funciona quando chega na hora de gravar. O audiovisual não acontece em um mundo onde tudo é possível.
Ele acontece na negociação entre o que você imaginou e o que você consegue realizar.
Mas então qual das duas narrativas está “certa” ou é a “melhor”?

Essa é com certeza a pergunta errada. Lanternas e Stuart não precisam contar a mesma história do mesmo jeito.
Na verdade, seria muito menos interessante se contassem. Duas séries com a mesma temática e parecidas saindo ao mesmo tempo seria monótono demais. Porque se uma mesma ideia pode gerar obras completamente diferentes dependendo das escolhas feitas ao longo do processo, por que não abraçar essa diferença?
Um super-herói pode protagonizar uma aventura ou aparecer em uma investigação policial. Pode virar uma piada ou pode ser tratado como uma figura trágica. Pode ser colocado dentro de uma história sobre amizade ou pode até não aparecer.
A ideia é só o ponto de partida.
O que transforma essa ideia em audiovisual é tudo aquilo que vem depois, colocar sua visão sobre uma ideia dá a ela personalidade.
Afinal, o que faz uma história ser sua?

Quando começamos um projeto, é muito comum pensar primeiro no “o quê fazer?”
“Quero fazer uma história sobre super-heróis.”
“Quero falar sobre inteligência artificial.”
“Quero contar uma história de amor.”
“Quero fazer um documentário sobre determinada pessoa.”
Mas existem perguntas que que são ainda muito mais importantes, a principal como ponto de partida pode ser:
Como eu quero contar isso?
Comédia ou drama?
Câmera parada ou inquieta?
Realista ou completamente absurdo?
Silêncio ou música?
Cortes rápidos ou planos longos?
Uma grande produção ou algo feito com o que está disponível?
Cada escolha muda a história. É por isso que duas obras podem partir de elementos parecidos e provocar experiências completamente diferentes.
O audiovisual começa quando a ideia encontra uma escolha

É bem isso que Lanternas e Stuart consiguem mostrar tão bem, cada um à sua maneira.
Um escolhe transformar o universo dos Lanternas em uma história de investigação e personagens. O outro escolhe transformar o caos multiversal e histórias de heróis em comédia, e até uma limitação de produção em piada.
Não existe uma única maneira de contar uma história. E essa provavelmente é uma das partes mais legais de trabalhar com audiovisual. Você pode começar com uma ideia que já foi contada mil vezes, tudo bem. Mas o que ainda pode inovar completamente é a sua escolha narrativa.
Salvar o universo é só uma questão de perspectiva. 😉
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